O fugaz juízo das opiniões precipitadas

A maior diferença entre um julgamento no tribunal e na imprensa é que no tribunal ele é baseado na lógica das provas e no uso do discurso racional do direito, enquanto na imprensa um pequeno dado isolado, uma foto ou uma informação deslocada do contexto acaba assumindo importância maior do que o próprio fato e suas circunstâncias. Na imprensa, o julgamento corre o risco de ser mais impressionista do que realista.

No caso de Fábio Luís Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula (PT), não é diferente. Dados manipulados pela investigação ao calor das conveniências acabam despertando maior interesse do que os próprios fatos que são objeto da investigação. Basta colocar no título da matéria uma enorme cifra de dinheiro para criar uma suspeita que nenhuma análise lógica é capaz de anular.

Foi o que aconteceu no último final de semana com duas reportagens, uma desta Folha e outra da revista Veja, que focaram nos elementos impressionistas do caso, dificultando a absorção dos elementos de racionalidade. Vamos, então, a eles:

Há, porém, um elemento de irracionalidade nessa tese que passou despercebido nas duas reportagens. Fábio Luís não só tem participação acionária como é diretor-presidente da Gamecorp. Seu nome está no contrato social registrado na Junta Comercial, em um documento de acesso público. Não há mistério, nem segredo. Por que figuraria ostensivamente na empresa se quisesse ocultar sua relação com a Oi? Que sentido faria pedir para um amigo qualquer “favor” que fosse com o objetivo de esconder o recebimento de valores se nunca manteve segredo sobre sua própria relação societária e comercial com a Oi?

As cifras mencionadas, por sua vez, são outro fator impressionista. Fala-se em dezenas de milhões de reais, como se tivessem sido aportados de uma só vez. O que não se diz é que esses valores são a somatória de tudo que a Gamecorp recebeu ao longo de 12 anos de serviços prestados pela empresa, que chegou a ter quase 200 funcionários e vários outros clientes importantes, como Microsoft, Sony, Hyundai, AMD, Sadia, Ambev, Warner Games e Cinemark.

As vidas de Fábio e de suas empresas já foram devassadas por anos a fio, e nada de irregular foi revelado. Tanto é assim que o inquérito que apurava esses fatos foi arquivado a pedido do próprio Ministério Público Federal de São Paulo.

Não deixa de causar estranheza que tenham sido ressuscitados agora pela força-tarefa da Lava Jato, poucas semanas após o seu pai deixar a prisão.

O que mais admira, na verdade, é que não se aponta um único ato ou um mero gesto de Fábio para defender interesses privados no governo. Nada, absolutamente nada.

As insinuações chegam a ser tão irreais que passam por cima de uma das colaborações premiadas mais festejadas e bem-sucedidas firmadas em Curitiba, a do executivo Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, à época controladora da Oi. Ele sempre negou qualquer irregularidade na relação da Oi com as empresas Gamecorp e Gol.

Se a Lava Jato quiser chamar essa colaboração de mentirosa terá que anular três anos de operação. Será um bom teste para a credibilidade e a imparcialidade das investigações.

Fábio Tofic Simantob e Marco Aurélio Carvalho

Advogados criminalista e tributarista, respectivamente; ambos são defensores de Fábio Luís Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 20/12/2019

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